Partimos de Brasília por
volta de 8 horas da manhã com o desejo de que por volta das 15 horas
chegaríamos à cidade de Alto Paraíso – G0. Chegamos depois das 15!
Chegamos às 18 hs e alguns minutos. Segundo o Luiz, a previsão estava
correta: “ Afinal 18 é depois de 15 horas”. Alívio, pois o sol somente
esperou que nossas motos tocassem o asfalto da cidade para deixar de nos
guiar pela sua claridade
Ao entramos no acesso para a cidade de Formosa deixamos a BR 040. Paramos em um posto de combustível para abastecer e para providenciar uma reserva de gasolina, pois não sabíamos se até a cidade de Alto paraíso encontraríamos outro ponto de abastecimento (adquirimos 5 litros extras de gasolina).
Depois de Formosa seguimos em sentido ao Salto do Itiquira. A manhã fresca nos convidava a olhar os contornos de pontas abaloadas e os altos paredões que dão forma a serra que iríamos margear até Alto Paraíso. Na entrada que dá acesso ao Salto deixamos o asfalto e iniciamos o périplo pela estrada de terra.
No primeiro terço da viagem a estrada é relativamente favorável a uma velocidade de aproximadamente 60 km por hora. A pista tem o solo firme, em que pese as constantes “costelas de vaca”.
Não foi necessário rodar por muito tempo para que fôssemos obrigados a parar e perceber que o combustível que levávamos como reserva estava se perdendo. Os solavancos e a contínua fricção do galão de combustível sobre o bagageiro de minha moto acabou por furar o vasilhame que transportava nossa reserva. Ágil, o Lenilson saltou de pronto de sua Yamaha (Tenere 250cc) e evitou que perdêssemos todo o combustível. O que havia sobrado da gasolina foi dividido entre a minha moto (NX 150 cc ano 1989) e a moto do Luiz ( XL 500 S ano 1980, uma legítima japonesa!).
A constante atenção ao terreno não permitia que nos entregássemos aos devaneios que as paisagens invariavelmente provocam. Constantemente éramos surpreendidos por trechos arenosos os quais nos obrigavam a exercitar o equilíbrio sobre as motos. O Regimar, que seguia à frente, na sua Yamaha Crosser 150 cc, estava sempre atento em nos avisar, pelo intercomunicador, sobre as dificuldades e os perigos colocados à nossa frente. Encontrávamos no percurso trechos ora com pedras, ora buracos, areia fofa e muitos desníveis na estrada.
Passamos por diversos botecos de beira de estradas. Em um deles paramos para que Luiz e Regimar se refrescassem com uma cerveja e nos servíssemos com biscoito de queijo e bolacha
Nessas oportunidades era comum provocar conversas amenas e divertidas com moradores da região . Ademais, essas interrupções eram oportunas para discutirmos e avaliarmos nosso trajeto à frente, observar se nossas bagagens estavam seguras, verificar se não havia alguma avaria nas nossas motos, esticar nossas pernas e também para rirmos de algum apuro deixado para trás.
Na localidade chamada Caixa, um povoado formado por assentados, encontramos gasolina a R$ 4,50 o litro. Somente Luiz e eu abastecemos. As motos do Regimar e Lenilson, além de possuírem a capacidade de armazenamento maior de combustível, são modernas e mais econômicas. Nessa localidade as informações sobre o caminho que deveríamos seguir eram controversas e diversificadas. Nossos interlocutores disputavam entre si a primazia e a gentileza de nos fornecer informações sobre o caminho que deveríamos tomar. Ao partirmos de Caixa tínhamos mais dúvidas do que esclarecimento sobre qual direção deveríamos prosseguir. A propósito, o nome do povoado é a obviedade: existe na localidade uma caixa d’água que se destaca, em altura, das pequenas árvores retorcidas do serrado.
Por pouco não é acrescido no nosso currículo o atropelamento de um galo! Ao passar por uma casa o danado que comia sossegado e absoluto, protegido e protegendo seu harém de galinhas, foi surpreendido pelo barulho de nossas motocicletas. O bípede, com penas azuladas e douradas, portador de uma exuberante crista vermelha, assustou com a zoeira invasiva de seu território e saiu em disparada em direção a estrada. A roda dianteira de minha moto rastelou as penas do rabo do galo que espertamente, com um misto de salto e vôo desengonçado, se livrou do pior e evitou sua passagem desta para outra vida! (ou para a panela!). Se o meu coração veio até a boca, imagino que o coração do galo deve ter ido até o seu bico. Pura sorte: o galo não foi temperado e eu me livrei de muitos arranhões!
Por três vezes fomos obrigados a atravessar cursos de águas correntes. No rio Macacão, enquanto avaliávamos o risco de atravessá-lo, o Luiz e sua ousada XL 500, tomou a frente, peitou a correnteza e alcançou a outra margem. Regimar, Lenilson e eu ficamos observando um regional atravessar o rio, numa Honda CG 125, pra que tivéssemos sinalização do melhor trajeto a seguir. Acontece que infelizmente a moto, o motociclista e o saco de farinha que ele carregava foram pra água! Restou-nos traçar cada qual seu próprio trajeto, rodar sobre as pedras do leito do rio e alcançar a outra margem do Macacão.
Com o inicio do inverno muitos riachos se encontram sem água. A secura provocada pela falta de chuvas faz com que a estrada se torne, em muitos trechos, encoberta por um pó fino que encobre tudo que é inferior a 20 centímetros (ou mais!). Sob a poeira assentada escondem-se buracos e muitas pedras soltas. Em dois destes trechos o Lenilson não conseguiu dominar sua Tenere e viu-se obrigado a saltar da sua moto para que não se machucasse. Em meio a essas dificuldades deparamos com uma boiada de aproximadamente 200 cabeças. Ao abrir caminho para passar entre os animais o gado assustado iniciou uma correria paralela a nós. Temi que algum animal se jogasse contra as nossas motocicletas.
No ultimo terço da viagem, o sol já sinalizava que estava prestes a nos deixar. Este talvez fosse o trecho que mais nos incomodou e o que mais ofereceu risco a nossa segurança. O lusco fusco do final de tarde refletindo nas viseiras empoeiradas, a grande quantidade de poeira que pairava no ar e a travessia da serra com ininterruptas curvas, diversas descidas abruptas e subidas íngremes exigia mais atenção, mais força e mais sorte. Era impossível enxergar a uma distância de 10 metros à frente!
Depois 120 km por asfalto e mais 220 km pela terra (*), finalmente entramos em Alto Paraíso, pela parte que se encontra incrustada no sopé da serra. Estávamos amarronzados de poeira! As luzes dos postes e a luzes das casas nos guiaram até a praça onde estavam instalados alguns artesãos Ao pararmos para pedir informações sobre a pousada que nos hospedaria, fomos surpreendidos pelo Galvão e o Vilson, que nos saudaram efusivamente pela nossa chegada. O encontro com os outros companheiros (Humberto e Pedrão) despertou risos, abraços, e felicitações. Mas o que mais me comoveu foi a demonstração de companheirismo e amizade ao exprimirem seus sentimentos de preocupação por havermos chegados tão tarde. Ou talvez me tenha comovido por associar com a preocupação que os pais possuem para com seus filhos, quando eles nos privam de notícias.
À noite, fomos sentar junto a uma mesa grande o suficiente que acomodar todos (Vilson, Galvão, Humberto, Pedro, Regimar, Lenilson, Luiz e eu). A iluminação tênue da lanchonete e a vela acesa sobre a mesa não combinavam com o fulgor das gargalhadas ao comemorarmos nossas aventuras já vividas. Comemos pastéis e carne na chapa com mandioca. Nesse ambiente, as nossas histórias se equilibravam sobre os copos de cervejas virados. Nos intervalos que sempre se faz depois de uma saraivada de gargalhadas, o Pedrão, revestido de seriedade terna e quase sussurrante, exclamava: “veja como é importante a amizade!”.
Quando deixamos a lanchonete a noite já se fazia fria. Ao caminharmos para a pousada Rubi Violeta, onde dormiríamos, nossas risadas e conversas em alta voz licenciava para que as janelas das casas se fechassem as nossas costas, e o ladrar vigilante dos cachorros se antecipasse à nossa passagem. Alguém olhou para o céu e chamou a atenção para a miríade de estrelas que se encontravam libertas da luminosidade das cidades grandes. Andamos mais alguns passos e alguém teve a ideia de assoviar para que nossas motocicletas viessem ao nosso encontro.
Ao entramos no acesso para a cidade de Formosa deixamos a BR 040. Paramos em um posto de combustível para abastecer e para providenciar uma reserva de gasolina, pois não sabíamos se até a cidade de Alto paraíso encontraríamos outro ponto de abastecimento (adquirimos 5 litros extras de gasolina).
Depois de Formosa seguimos em sentido ao Salto do Itiquira. A manhã fresca nos convidava a olhar os contornos de pontas abaloadas e os altos paredões que dão forma a serra que iríamos margear até Alto Paraíso. Na entrada que dá acesso ao Salto deixamos o asfalto e iniciamos o périplo pela estrada de terra.
No primeiro terço da viagem a estrada é relativamente favorável a uma velocidade de aproximadamente 60 km por hora. A pista tem o solo firme, em que pese as constantes “costelas de vaca”.
Não foi necessário rodar por muito tempo para que fôssemos obrigados a parar e perceber que o combustível que levávamos como reserva estava se perdendo. Os solavancos e a contínua fricção do galão de combustível sobre o bagageiro de minha moto acabou por furar o vasilhame que transportava nossa reserva. Ágil, o Lenilson saltou de pronto de sua Yamaha (Tenere 250cc) e evitou que perdêssemos todo o combustível. O que havia sobrado da gasolina foi dividido entre a minha moto (NX 150 cc ano 1989) e a moto do Luiz ( XL 500 S ano 1980, uma legítima japonesa!).
A constante atenção ao terreno não permitia que nos entregássemos aos devaneios que as paisagens invariavelmente provocam. Constantemente éramos surpreendidos por trechos arenosos os quais nos obrigavam a exercitar o equilíbrio sobre as motos. O Regimar, que seguia à frente, na sua Yamaha Crosser 150 cc, estava sempre atento em nos avisar, pelo intercomunicador, sobre as dificuldades e os perigos colocados à nossa frente. Encontrávamos no percurso trechos ora com pedras, ora buracos, areia fofa e muitos desníveis na estrada.
Passamos por diversos botecos de beira de estradas. Em um deles paramos para que Luiz e Regimar se refrescassem com uma cerveja e nos servíssemos com biscoito de queijo e bolacha
Nessas oportunidades era comum provocar conversas amenas e divertidas com moradores da região . Ademais, essas interrupções eram oportunas para discutirmos e avaliarmos nosso trajeto à frente, observar se nossas bagagens estavam seguras, verificar se não havia alguma avaria nas nossas motos, esticar nossas pernas e também para rirmos de algum apuro deixado para trás.
Na localidade chamada Caixa, um povoado formado por assentados, encontramos gasolina a R$ 4,50 o litro. Somente Luiz e eu abastecemos. As motos do Regimar e Lenilson, além de possuírem a capacidade de armazenamento maior de combustível, são modernas e mais econômicas. Nessa localidade as informações sobre o caminho que deveríamos seguir eram controversas e diversificadas. Nossos interlocutores disputavam entre si a primazia e a gentileza de nos fornecer informações sobre o caminho que deveríamos tomar. Ao partirmos de Caixa tínhamos mais dúvidas do que esclarecimento sobre qual direção deveríamos prosseguir. A propósito, o nome do povoado é a obviedade: existe na localidade uma caixa d’água que se destaca, em altura, das pequenas árvores retorcidas do serrado.
Por pouco não é acrescido no nosso currículo o atropelamento de um galo! Ao passar por uma casa o danado que comia sossegado e absoluto, protegido e protegendo seu harém de galinhas, foi surpreendido pelo barulho de nossas motocicletas. O bípede, com penas azuladas e douradas, portador de uma exuberante crista vermelha, assustou com a zoeira invasiva de seu território e saiu em disparada em direção a estrada. A roda dianteira de minha moto rastelou as penas do rabo do galo que espertamente, com um misto de salto e vôo desengonçado, se livrou do pior e evitou sua passagem desta para outra vida! (ou para a panela!). Se o meu coração veio até a boca, imagino que o coração do galo deve ter ido até o seu bico. Pura sorte: o galo não foi temperado e eu me livrei de muitos arranhões!
Por três vezes fomos obrigados a atravessar cursos de águas correntes. No rio Macacão, enquanto avaliávamos o risco de atravessá-lo, o Luiz e sua ousada XL 500, tomou a frente, peitou a correnteza e alcançou a outra margem. Regimar, Lenilson e eu ficamos observando um regional atravessar o rio, numa Honda CG 125, pra que tivéssemos sinalização do melhor trajeto a seguir. Acontece que infelizmente a moto, o motociclista e o saco de farinha que ele carregava foram pra água! Restou-nos traçar cada qual seu próprio trajeto, rodar sobre as pedras do leito do rio e alcançar a outra margem do Macacão.
Com o inicio do inverno muitos riachos se encontram sem água. A secura provocada pela falta de chuvas faz com que a estrada se torne, em muitos trechos, encoberta por um pó fino que encobre tudo que é inferior a 20 centímetros (ou mais!). Sob a poeira assentada escondem-se buracos e muitas pedras soltas. Em dois destes trechos o Lenilson não conseguiu dominar sua Tenere e viu-se obrigado a saltar da sua moto para que não se machucasse. Em meio a essas dificuldades deparamos com uma boiada de aproximadamente 200 cabeças. Ao abrir caminho para passar entre os animais o gado assustado iniciou uma correria paralela a nós. Temi que algum animal se jogasse contra as nossas motocicletas.
No ultimo terço da viagem, o sol já sinalizava que estava prestes a nos deixar. Este talvez fosse o trecho que mais nos incomodou e o que mais ofereceu risco a nossa segurança. O lusco fusco do final de tarde refletindo nas viseiras empoeiradas, a grande quantidade de poeira que pairava no ar e a travessia da serra com ininterruptas curvas, diversas descidas abruptas e subidas íngremes exigia mais atenção, mais força e mais sorte. Era impossível enxergar a uma distância de 10 metros à frente!
Depois 120 km por asfalto e mais 220 km pela terra (*), finalmente entramos em Alto Paraíso, pela parte que se encontra incrustada no sopé da serra. Estávamos amarronzados de poeira! As luzes dos postes e a luzes das casas nos guiaram até a praça onde estavam instalados alguns artesãos Ao pararmos para pedir informações sobre a pousada que nos hospedaria, fomos surpreendidos pelo Galvão e o Vilson, que nos saudaram efusivamente pela nossa chegada. O encontro com os outros companheiros (Humberto e Pedrão) despertou risos, abraços, e felicitações. Mas o que mais me comoveu foi a demonstração de companheirismo e amizade ao exprimirem seus sentimentos de preocupação por havermos chegados tão tarde. Ou talvez me tenha comovido por associar com a preocupação que os pais possuem para com seus filhos, quando eles nos privam de notícias.
À noite, fomos sentar junto a uma mesa grande o suficiente que acomodar todos (Vilson, Galvão, Humberto, Pedro, Regimar, Lenilson, Luiz e eu). A iluminação tênue da lanchonete e a vela acesa sobre a mesa não combinavam com o fulgor das gargalhadas ao comemorarmos nossas aventuras já vividas. Comemos pastéis e carne na chapa com mandioca. Nesse ambiente, as nossas histórias se equilibravam sobre os copos de cervejas virados. Nos intervalos que sempre se faz depois de uma saraivada de gargalhadas, o Pedrão, revestido de seriedade terna e quase sussurrante, exclamava: “veja como é importante a amizade!”.
Quando deixamos a lanchonete a noite já se fazia fria. Ao caminharmos para a pousada Rubi Violeta, onde dormiríamos, nossas risadas e conversas em alta voz licenciava para que as janelas das casas se fechassem as nossas costas, e o ladrar vigilante dos cachorros se antecipasse à nossa passagem. Alguém olhou para o céu e chamou a atenção para a miríade de estrelas que se encontravam libertas da luminosidade das cidades grandes. Andamos mais alguns passos e alguém teve a ideia de assoviar para que nossas motocicletas viessem ao nosso encontro.
* O retorno foi inteiramente por asfalto, num percurso de 238 km.
Escrito por Wellington Figueiredo












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